Entrevistas e Palestras
2008
23 / Junho
'Produzir e criar som: minha grande loucura'
Emilio Carrera, produtor e criador de som publicitário
Clubeonline: Como o fato de ter sido pianista do “Secos & Molhados”, em sua formação original, influenciou (e influencia) sua criação musical para o mercado publicitário?
Emilio Carrera: O Secos & Molhados foi o trabalho musical que participei que mais repercussão teve. Como consequência acabou gerando algumas ideias a meu respeito. Uma delas é essa influência criativa musical a que você se refere. Bem, é claro que houve, mas eu não poderia deixar de considerar alguns outros trabalhos que fiz na música e na propaganda, que, de repente, dependendo do ângulo que se veja, podem até ter me influenciado mais.
Clubeonline: Nem sempre o meio artístico convive bem com o publicitário. Mesmo vivendo numa estimulante atmosfera cultural na década de 70, você se sentiu atraído pela publicidade. Por quê? O que o levou a investir numa produtora de som?
Carrera: Nós, músicos do Secos & Molhados que não estávamos aparentemente na linha de frente, éramos obrigados a ficar meio que à mercê de uma situação geral, e isso naquele momento acabou me chateando. Por conta disso, e por essa vontade que tenho de sempre seguir em frente, começava a dar meus pitacos na propaganda, em paralelo. Foi aí que comecei a perceber o quanto era bom também mexer com som como um todo, daquele jeito, mais pensado, isso me atraía muito. Como eu tinha alguma facilidade para isso, quando acabou o S&M acabei migrando naturalmente para a propaganda.
Clubeonline: Você começou na Almap, certo?
Carrera: Tive a sorte de começar em ótimas agências. Trabalhei na Almap por dois anos e depois na DPZ por 11. Foi muito bom, foram super-escolas. O clima, a efervescência criativa naqueles corredores eram estimulantes. Eu era quase que obrigado a fazer um bom trabalho e isso acabou trazendo bons resultados para as agências. Foram vários prêmios, e muita gente feliz, especialmente eu! Cheguei, por exemplo, a ser o único produtor musical a trazer para o Brasil o Grand Prix de rádio do “Festival Internacional de Rádio de New York”. Ganhamos com o jingle "Me Pisa" para Tabacow. Eram frases de outdoor que viraram música, cantadas por uma cantora e apenas uma guitarra jazzista, acompanhando um tema dor de cotovelo que dizia: "...me pisa, me chuta, me molha, me chama daquilo que sou, me chama de Tabacow". Foram também Fiaps, alguns Leões, Grand Prix em Cannes. Depois de um tempo nesse embalo, resolvi montar minha produtora, a Piano, que também me deu muito prazer. Assim, poderia fazer o que estava querendo, passar a atender outras agências, conhecer outras pessoas e continuar fazendo a roda rodar...
Clubeonline: Poderia citar alguns dos cases da Piano e o que eles representaram para você, como o de Brastemp, por exemplo?
Carrera: Fizemos muita coisa boa. Por exemplo, o som da campanha "Nossos japoneses são mais criativos que os japoneses dos outros" também com Leões em Cannes; o "Completamente louco" para o Itaú Seguros, marcante e premiadíssimo, lançando o ator Paulo Goulart nas locuções; mas, sem dúvida, o de maior repercussão foi a assinatura musical Brastemp. O som, era do tipo "mais simples impossível", e acabou fazendo parte daquele restrito time de assinaturas superpoderosas. A assinatura "Bululumba", veio do Coral dos Bigodudos. Era um quadro humorístico da TV. Um jogral seríssimo, que com suas togas negras entravam em cena a passos firmes e determinados para cantar a explicação de como faziam xixi. Eu, menino, adorava aquilo e guardava sem saber toda aquela sonoridade. Depois de tanto tempo, surge esse pedido de trabalho e vem essa informação para ajudar a resolver uma necessidade de comunicação tão racional e de uma marca tão forte como a Brastemp.
Clubeonline: Como você avalia, nos dias de hoje, com tanta tecnologia disponível, a qualidade dos trabalhos publicitários no que diz respeito à produção sonora? Citaria alguns exemplos dignos de nota?
Carrera: Vivemos um momento rico pela abundância e pelas possibilidades criativas. Como a gente sabe, essa tecnologia absolutamente democrática acabou igualando muita gente que mexe com criação de som e colocando todos num grande balaio. Claro, isso incomodou muitas pessoas e com razão. Mas como o tempo se encarrega de tudo, me parece que as coisas estão se assentando. Por consequência sinto que estamos indo na direção de uma especialidade de produção e de criação sonora. Acredito que isso é bom, recoloca todos os talentos em seus lugares, e pode deixar resultados mais artísticos. Infelizmente os spots não decolam, tomara Cannes ajude a melhorar.
Clubeonline: Depois de algum tempo distante dos palcos, você foi convidado a fazer a direção musical e arranjos, além de tocar piano e teclado no show "Inclassificáveis", de Ney Matogrosso. Como está sendo a experiência de voltar à cena?
Carrera: Primeiro, acho que vale falar sobre a maneira não muito comum que aconteceu. De repente, num período curto, mais ou menos dois meses, começaram a acontecer coisas, no mínimo, estranhas, vários amigos, em tempos diferentes, me sugeriam tentar uma reaproximação de uma possível volta dos Secos & Molhados.
Foram tantos pedidos, que me fizeram, com certo cuidado, verdade, colocar no papel algumas ideias. Cheguei até a consultar alguns músicos. Ao mesmo tempo em minha página do Orkut comecei a receber mensagens de jovens que acabavam de descobrir que eu era o pianista dos Secos, e escreviam coisas como "...aquele piano de 'Mulher Barriguda' foi você? Você mudou minha vida, hoje eu sou pianista por conta dele!", coisas absolutamente loucas, principalmente considerando o tempo que faz. Até que um dia cheguei na produtora e recebi um recado que o Ney Matogrosso, depois de trinta e poucos anos, tinha me ligado e queria falar comigo! Liguei para ele no ato, e no fim do dia estávamos matando saudades e conversando. Entre outras coisas, ele me dizia que também estavam rolando acontecimentos estranhos com ele, mais ou menos do mesmo jeito que estavam ocorrendo comigo, como, por exemplo, amigos que passaram a elogiar os músicos do Secos com muita frequência e pediam que ele ouvisse novamente os dois LPs, que eram muito modernos, cults, e por aí vai. Bem, por tudo isso, e por outras, ele me convidou para tocar teclados e fazer a direção musical de seu novo projeto.
Clubeonline: Você aceitou sem titubear?
Carrera: Mergulhei para valer. Já vinha estudando piano e isso me ajudava muito, mas estava meio apreensivo com a direção musical, afinal estava lidando com um artista hoje considerado dos maiores intérpretes da MPB de todos tempos. Inicialmente conversamos muito pouco sobre o que ele pensava especificamente sobre som, ele só era explícito em algumas coisas como, por exemplo, que gostaria que a banda fosse paulista, que tivesse essa coisa mais urbana, que no show tivessem algumas vinhetas musicais para que ele pudesse trocar de roupa em cena. Tivemos um encontro onde falamos das músicas que ele já tinha definido, e pronto, de resto deixava comigo. Liguei meu radar e torci para acertar. Queria fazer o show da vida do Ney. Bem, em pouco tempo estava com a banda montada exatamente como imaginava. Uma coisa pesada, meio selvagem de jovens e talentosos músicos da noite paulistana. A formação era básica, mais dois percussionistas, sendo um DJ. Comecei tocando e dirigindo ensaios e arranjos, e depois de um mês o Ney veio a SP ensaiar e conhecer os arranjos e os músicos. A coisa foi tão solta, tão normal, que até existia uma brincadeira entre nós, músicos, no mês que ensaiamos sozinhos. Eles diziam que na verdade eu os estava sacaneando, que o Ney não existia e que aquilo tudo era uma "pegadinha do Sergio Mallandro!". Até que finalmente ele chegou, rimos muito, tudo certo, e começamos os ensaios. Com ele, toda a sua impressionante noção de espetáculo e bom gosto.
Hoje estamos com o "Inclassificáveis" na estrada, e bombando.
O Ney em capas de revistas, o show com grande sucesso de crítica e público com suas lotações sempre esgotadas, vendendo muito CDs e DVDs, e eu, absolutamente recompensado. Foi a melhor retribuição à confiança que o Ney me depositou.
Agora, como digo, é só tocar...
Clubeonline: Agora, o que vem por aí na sua carreira artística?
Carrera: Aproveitando esse embalo e o estudo do piano que venho fazendo, tenho composto e arranjado ao piano canções especiais que me dizem mais a respeito, de uma maneira especial. Com mais soltura, liberdade, venho conduzindo esse trabalho, uma coisa mais íntima. Sei da dificuldade que é isso e de que até pode soar meio estranho, mas escolhi para mim e vou em frente. Tenho um excelente mestre e amigo, que com todo seu talento e formação como compositor e pianista solista erudito vem me ajudando muito nessa escolha, o Amaral Vieira. Quem sabe no ano que vem terei alguma coisa pronta.
Clubeonline: E na propaganda?
Carrera: Produzir, criar som, estas são minhas grandes loucuras, me fazem bem, me exercitam e me dão prazer. E por conta desse meu momento, estou agora me colocando no mercado como um criador e produtor free lancer totalmente comprometido com o resultado. Gostaria de alçar grandes voos na propaganda, grandes campanhas, grandes desafios, usando minha experiência e essa minha vontade de fazer o melhor.
Clubeonline: E a Zeeg2?
Carrera: A Zeeg2 é a produtora de meus filhos e onde eu vinha atuando com exclusividade. A empresa passa a caminhar sozinha, de acordo com nosso projeto inicial, assim, quando preciso, ela também passa a me atender com sua estrutura e, especialmente, com o talento de meus filhos. E eu concretizo um plano profissional, que é poder definir diretamente com meus clientes o que é melhor para cada trabalho em todos os sentidos.
Clubeonline: Você já tem alguns trabalhos para sair do forno?
Carrera: Tenho alguns trabalhos chegando, mas prefiro ainda não falar. Primeiro vamos deixar e torcer para que essa roda também comece a rodar.
- ESPALHE:
- Digg
Comentários
comente-
Nenhum comentário até o momento. Seja o primeiro.
Enviar por e-mail
Enviando e-mail, aguarde.
Impossível enviar o email. Tente novamente.
Seu email foi enviado com sucesso. Obrigado.
