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2012
20 / Junho
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Cannes Lions (Brasil / Mundo)
Cannes Lions 2012
Brasil, a Amy Winehouse de Cannes
Verdade seja dita: estamos drogados e precisando urgentemente de uma clínica de detox. Pior: ao nosso redor, todos batem palmas para nossos porres, nossos papelões em publico, nossos beijos na sarjeta. Por um motivo muito simples: porque é divertido assistir, porque vende jornal, pelo prazer mórbido do ser humano de olhar pra outro se autodestruindo, como que reafirmando como está são e equilibrado o observador.
O assunto são os fantasmas brasileiros, que ganharam em 2012 eufemismos novinhos em folha: os “paralelos” ou “proativos” (já foram “inéditos” em edições anteriores).
No Meio&Mensagem desta semana, foi feito um artigo sobre as muitas agências brasileiras que reservam uma fatia absurda do seu timesheet (60, 70%) para “fazer Cannes”. Sim, cliente, é isso mesmo que você leu: a mesma equipe que te atende no dia a dia se reúne para criar livremente, sem as amarras desagradáveis do briefing, do budget, do business. São muitas horas de trabalho, muitos reais de produção e muitos euros de inscrição. Muitos. E muita cobrança, porque afinal, como ganhar tantos Leões todos os anos em Cannes? O subtexto é claro: o dia-a-dia é chato, ter briefing é difícil, o cliente e a aprovação são na verdade uma barreira entre o criativo e o sonhado Leão.
A pergunta que vem imediatamente é: mas quem disse que o Brasil precisa ganhar todo ano 60, 70 Leões em Cannes? Mais na frente falamos disso, porque tem coisa mais importante pra falar agora.
O que é mais importante? Ah, sim, nosso negócio é mais importante. A ridicularização crescente que a comunidade criativa tem se proporcionado é mais importante. A preguiça, falta de visao estratégica e infantilidade de quase toda a nova geração de criativos (que já foram gestados sob efeito da droga, já nasceram viciados), isso é importante.
Sim, porque, não fossem essas as consequências, não estaríamos aqui discutindo. Tudo isso seria um assunto menor. A analogia do drogado volta a fazer bastante sentido. Se o vício não tivesse nenhuma consequência maior, qual seria o problema, certo? Em “Little Miss Sunshine” o avô viciado em heroína diz algo como: “Você tem que ser muito estúpido pra usar heroína aos 20 anos de idade, e muito estúpido pra não usar aos 80”.
O problema é que a nossa heroína tem sim consequências. E não me importam as consequências pra cada pessoa jurídica, pra cada agência. Somos todos grandinhos e vacinados, cada um faz o que quiser e bem entender do seu negócio. Tenho uma agência e não inscrevo fantasmas e não faço sessões de criação pra Cannes, essa é a minha decisão porque acho que é a que fará bem para o meu negócio, e se você quer fazer o oposto na sua agência, seja feliz, boa sorte.
Falo das consequências para o Negócio, com caixa alta. Falo do criativo mimado que, pra começar, não consegue entender um briefing porque pra ele briefing não é desafio, é obstáculo. E quando entende razoavelmente, cria pensando no que o júri de Cannes vai achar disso. E quando recebe um não do cliente, parte imediatamente para um feijão-com-arroz sem sal, mais do mesmo, porque na sua cabeça é aquilo que o cliente vai aprovar. E quanto mais rápido aprovar um trabalho medíocre, mais tempo sobra pra burilar aquela ideia original, brilhante, e mandá-la diretamente para o Festival.
Falo do cliente que, ansioso por participar da comunidade criativa, pergunta ao diretor de criação com que cliente a agência dele ganhou em Cannes e descobre que foi para a Academia de Ioga Hare Hare, não conhece? Ou mesmo que foi para um cliente grande da agência, mas engraçado, eu nunca tinha visto isso…
Falo sobretudo (e aqui concordo 100% com a opinião do Javier Talavera no artigo do Meio&Mensagem) de gastar o dinheiro do cliente de verdade na criação da propaganda de mentira. E como a gente vai querer ser respeitado, ter representatividade no negócio, agindo assim?
Este ano o Brasil ganhará uns 50 ou 60 Leões. De todos estes, uns 10 não terão sido criados para o Festival. Terão passado por briefing, aprovação, restrição de budget, plano de mídia, a vida real. Uns 30 terão sido criados para Festival, sem o olhar do cliente, bancados pela agência, e simplesmente recebido um ok do cliente para inscrever e mesmo veicular em algum lugar, normalmente incompatível com a mensagem e o target. Outros 20 terão sido criados antes sequer de existir um cliente, e depois é só digitar a categoria no Google, pegar a listinha e vai pra rua o atendimento catar um anunciante pra assinar aquilo. Afinal, quantas academias como a Ioga Hare Hare não gostariam de ganhar uma campanha de graça, produzida com um budget que ela nunca teria? Ah, e ainda tem um ou outro que o cliente sequer existe, ou o cliente nunca viu. Mas esses normalmente são cassados, pra dar uma impressão bacana de moralidade.
Comecei o artigo citando a Amy e a imprensa. Não foi à toa. Porque se por um lado me agradou ver o assunto abordado no Meio&Mensagem, me incomodou lembrar que a mesma imprensa que hoje levanta o problema incensou e festejou dezenas, centenas de Leões falsos criados ao longo dos últimos anos. Festejou não, festeja. E seria injusto me referir apenas ao Meio&Mensagem, me refiro a todos os veículos relevantes do mercado publicitário, sem exceção, incluindo aqui o CCSP, do qual sou vice-presidente. O fato é que nós, TODOS NÓS, divulgamos e consumimos a mentira. E aqui não me interessa acusar ou apontar dedos. Me interessa sim é propor que cada um assuma parte que lhe cabe neste latifúndio. O primeiro passo pra deixar o vício é assumir que ele existe. Seria um bom começo a gente parar de acreditar na própria mentira.
O problema do drogado é que ele sempre acredita que é capaz de segurar a onda.
Fernando Campos - sócio e diretor de criação da Santa Clara
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Comentários
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19/06/12 Albino Jose Camargo
Fernando, bem-vindo ao lado de cá da Matrix.
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19/06/12 Maurício Gomide
Sou novo no mercado (redator há um ano apenas), mas já exercito todos os dias a habilidade de não se contraverter ao cliente. Vem refação, vai reprovação e continuo na busca da aprovação por superação, e não por cansaço. Vejo alguns profissionais um pouco mais velhos e fica muito claro o que você escreveu: o briefing, tão amigo e querido assim que você entra na agência (você não vê a hora de receber um), não pode se tornar um inimigo.
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19/06/12 Sergio Mugnaini
Belo texto. Pro ano que vem, o país poderia mandar mais peças na categoria Creative Effectiveness. Trabalho bom, dá resultado.
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19/06/12 Diogo Souto da Silva
Concordo. Mas tem o outro lado da moeda também. Os MBA's em Marketing da vida estão engessando nossa criatividade. Estão transformando a propaganda em algo racional demais e emoção de menos. A questão é, quando um filme ganha um Oscar ele ganha um selo de que esse filme é bom, logo o público ganha mais um motivo para assistir. Porque com a publicidade tem que ser diferente? Parece que temos que nos envergonhar da nossa capacidade criativa? Acho apenas que um festival da importância de Cannes tem que ser criterioso ao ponto de não premiar algo que não traga benefício ao negócio do cliente, algo como um mero devaneio de um criativo. Até porque isso não seria criativo, mas sim criativoso. Mas diante desse belo texto do Fernando Campos, o que o mercado precisa discutir também é como fazer o cliente entender isso tudo. Entender que se a propaganda dele é premiada é porque é de excelente qualidade. Caso contrário, o festival de Cannes não serve de nada.
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19/06/12 Pedro Del Priore
Fernando Campos, parabéns pelo belo texto mas principalmente, pela personalidade de redigir e publica-lo neste espaço, sendo vc quem é. Concordo, celebro e apoio sua posição de todas as formas possíveis. E agradeço por alguem com o peso e relevância que tens no mercado publicitário, de se manifestar sobre o assunto. Forte abs,
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